sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Supremo Enleio


Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás-de encontrar ainda...

(Florbela Espanca)

domingo, 11 de setembro de 2011

Os Versos Que Te Dou

Ouve estes versos que te dou, eu os fiz
Hoje que sento o coração contente,
- enquanto o teu amor for meu somente,
eu farei versos... e serei feliz...

E hei de faze-los pela vida em fora
Versos de sonho e amor, e hei de depois
Relembrar o passado de nós dois,
Esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura
São versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los, sem ninguém
Que possa perturbar nossa ventura,...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
Hás de um dia, mais tarde, revivê-los,
Nas lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los...com saudade, em tua dor,
Hás de rever, chorando, o nosso amor,
E hás de lembrar, também,de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido
E outros versos quiseres, teu pedido
Deixa ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá, novamente, então tu fores,
Podes colher do chão todas as flores
Pois são versos de amor que ainda te dou!...
(J.G. de Araújo Jorge)

Como Eu Te Amo

Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho nima flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;
Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua;

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;
Como se ama o crepúsculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;
Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-te os lábios meus, - mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti.-- Por tudo quanto eu sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta sofrer, por tudo que te amo.

O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! Nunca saberás
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem eu te revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

(Gonçalves Dias)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A loja de CDs

Um garoto nasceu com uma doença que não tinha cura.

Tinha 20 anos e podia morrer a qualquer momento. Sempre viveu na casa de seus pais, sob o cuidado constante de sua mãe. Um dia decidiu sair sozinho e, com a permissão de sua mãe, caminhou pela sua quadra, olhando as vitrines e as pessoas que passavam.

Ao passar por uma loja de discos, notou a presença de uma garota, mais ou menos da mesma idade, que parecia ser feita de ternura e beleza.

Abriu a porta e entrou, sem olhar para mais nada que não aquela linda menina. Aproximou-se timidamente, ao balcão onde ela estava.

Quando o viu, ela deu-lhe um sorriso e perguntou se podia ajudá-lo em alguma coisa. Era o sorriso mais lindo que ele já havia visto, e a emoção foi tão forte que ele mal conseguiu dizer que queria comprar um CD. Pegou o primeiro que encontrou, sem nem olhar de quem era, e disse “esse aqui”. “Quer que eu embrulhe para presente?”, perguntou ela sorrindo ainda mais e ele conseguiu apenas mexer a cabeça para dizer que sim. Ela saiu do balcão e voltou, pouco depois, com um CD em um lindo embrulho. Ele pegou o pacote e saiu, louco de vontade de ficar por ali admirando aquela figura singular. Daquele dia em diante, todas as tardes voltava à loja de discos e comprava um CD qualquer.

Todas às vezes a garota deixava o balcão e voltava com um embrulho cada vez mais lindo, que ele guardava no closet, sem nem abrir.

Ele estava apaixonado, mas tinha medo da reação dela, e assim por mais que ela sempre o recebesse com um doce sorriso, não tinha coragem para convidá-la para sair e conversar. Comentou sobre isso com sua mãe e ela o incentivou, muito a chamá-la para sair. Um dia, ele se encheu de coragem e foi para a loja. Como todos os dias, comprou um CD e, como sempre ela foi embrulhá-lo.

Quando ela não estava vendo, escondeu um papel com seu nome e telefone no balcão e saiu correndo da loja.

No dia seguinte o telefone tocou e a mãe do jovem atendeu. Era a menina perguntando por ele. A mãe, desconsolada, nem perguntou quem era, começou a chorar e disse: “Então você não sabe? Faleceu esta manhã”.

Mais tarde, a mãe entrou no quarto de seu filho, para olhar suas roupas, e ficou muito surpresa com a quantidade de CD’s, todos embrulhados. Ficou curiosa e decidiu abrir um deles. Ao fazê-lo, viu cair um pequeno pedaço de papel, onde estava escrito: “Você é muito simpático, não quer me convidar para sair? Eu adoraria”. Emocionada, a mãe abriu outro CD e dele também caiu um pedaço de papel que dizia o mesmo, e assim todos quantos ela abriu traziam uma mensagem de carinho e de esperança de conhecer aquele rapaz.

Assim é a vida: Não espere demais para dizer a alguém especial aquilo que você sente. Diga-lhe já, amanhã pode ser muito tarde...

Essa mensagem é para dizer que você é muito especial, e porquê, não fazer o mesmo, retribuindo o carinho e atenção das pessoas que você gosta e que gostam de você.

Não deixe para amanhã. Quem sabe não dá mais tempo.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Hino ao Amor


Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos,

Se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso

Ou como címbalo estridente.

Ainda que eu tivesse o dom da profecia,

O conhecimento de todos os mistérios

E de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé,

A ponto de transportar montanhas,

Se não tivesse o amor, eu não seria nada.

Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos,

Ainda que entregasse o meu corpo às chamas,

Se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria.

O amor é paciente,

O amor é prestativo;

Não é invejoso,

Não se ostenta, não se incha de orgulho.

Nada faz de inconveniente,

Não procura seu próprio interesse,

Não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça,

Mas se regozija com a verdade.

Tudo desculpa, tudo crê,

Tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará.

As profecias desaparecerão,

As línguas cessarão, a ciência também desaparecerá.

Pois o nosso conhecimento é limitado;

Limitada é também a nossa profecia.

Mas, quando vier a perfeição,

Desaparecerá o que é limitado.

Quando eu era criança, falava como criança,

Pensava como criança, raciocinava como criança.

Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança.

Agora vemos como em espelho e de maneira confusa;

Mas depois veremos face a face.

Agora o meu conhecimento é limitado,

Mas depois conhecerei como sou conhecido.

Agora, portanto,

Permanecem estas três coisas:

A fé, a esperança e o amor.

A maior delas, porém,

É o amor.

(Apostolo Paulo)