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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Amor Antigo

 
O amor antigo vive de si mesmo
Não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
Mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
Feitas de sofrimento e de beleza. 
Por aquelas mergulha no infinito,
E por estas suplanta a natureza. 
Se em toda parte o tempo desmorona
Aquilo que foi grande e deslumbrante,
O antigo amor, porém, nunca fenece.
E a cada dia surge mais amante. 
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
E resplandece no seu canto obscuro,
Tanto mais velho quanto mais amor.”

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Carlos Drummond de Andrade

Nascido e criado na cidade mineira de Itabira, Carlos Drummond de Andrade levaria por toda a sua vida, como um de seus mais recorrentes temas, a saudade da infância. Precisou deixar para trás sua cidade natal ao partir para estudar em Friburgo e Belo Horizonte.

Formou-se em Farmácia, atendendo a insistência da família em graduar-se. Trabalha em Belo Horizonte como redator em jornais locais até mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1934, para atuar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, então nomeado novo Ministro da Educação e Saúde Pública.

Em 1930, seu livro "Alguma Poesia" foi o marco da segunda fase do Modernismo brasileiro. O autor demonstrava grande amadurecimento e reafirmava sua distância dos tradicionalistas com o uso da linguagem coloquial, que já começava a ser aceita pelos leitores.

Drummond também falava sobre temas como o desajustamento do indivíduo, ou as preocupações sócio-políticas da época, como em “A Rosa do Povo” (1945). Apesar de serem temas fortes, ele conseguia encontrar leveza para manter sua escrita com humor e uma sóbria ironia.

Produzindo até o fim da vida, Carlos Drummond de Andrade deixou uma vasta obra. Quando faleceu, em agosto de 1987, já havia destacado seu nome na literatura mundial. Com seus mais de 80 anos, considerava-se um "sobrevivente", como destaca no poema "Declaração de juízo".


quinta-feira, 31 de março de 2011

Amar

Que pode uma criatura senão,

Entre criaturas, amar?

Amar é esquecer,

Amar é mal amar

Amar, desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados,

Amar?

Que pode, pergunto, o ser

Amoroso,

Sozinho, em rotação universal,

Senão rodar também, e amar? (...)

Amar a nossa falta mesma de amor,

E na secura nossa

Amar a água implícita, e o beijo tácito,

E a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)


sábado, 12 de março de 2011

Poema Mãos Dadas


Não serei o poeta

De um mundo caduco

Também não cantarei

O mundo futuro

Estou preso à vida

E olho meus companheiros

Estão taciturnos, mas nutrem

Grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme

Realidade.

O presente é tão grande, não nos

Afastemos. Não nos afastemos muito,

Vamos de “Mãos dadas”

Não serei o cantor de uma mulher

De uma história,

Não direi os suspiros ao anoitecer,

A paisagem vista da janela,

Não distribuirei entorpecentes ou cartas

De suicidas

Não fugirei para as ilhas

Nem serei raptado por serafins

O tempo é minha matéria,

O tempo presente, os homens presentes.

(Carlos Drummond de Andrade)