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domingo, 29 de janeiro de 2012

Meu Orgulho


Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos fez nascer às rosas!

As minhas mãos, outrora carinhosas,
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem...
Mas digo para mim: «Não me merecem...»
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha.
E também é nobreza não ter nada!

(Florbela Espanca)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Coração





Coração essa dor tão grande,

Que me invade, quando penso,

No vácuo carregado.



Ele que foi feito para o amor,

Hoje não carrega, nem mais dor.

Ele batia, com alegria,

E hoje bate, sem harmonia.



Eu sonhava, ele sorria.

Hoje eu penso em como seria.

Sem dor, sem dança,

As coisas tantas, que a vida canta,

Não escuto mais.



De solidão vive um coração,

Que nem dor carrega mais,

Falo palavras e orações,

Ajudo a todos os corações,

Mas quando vejo, estou aqui,

Com algumas lágrimas a me cobrir.



Sem dor, nem dança,

Nem o vento alcança,

A melodia, tão bela e fina,

Que eu trazia dentro do peito,

Agora nem o som dos tambores,

Eu sinto bater dentro do peito.



Do que valia, tais melodias,

Se nada delas pude fazer?

E agora, o tempo,

Já fez questão de resolver.



Esse impasse, que se rebate,

Pelo meu peito ao amanhecer,

E a falta de amor e de melodia,

Nada mais poderão me fazer.



Anestesia na alma levei,

Para esquecer amores que não tenho

De uma vez.


(Mariana Amaral de Queiroz)


quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu





Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do sonho, e desta sorte,

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida.

Sou aquela que passa e ninguém vê...

Sou a que chamam triste sem o ser...

Sou a que chora sem saber porque...

Sou talvez a visão que alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo para me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

(Florbela Espanca)