quinta-feira, 17 de março de 2011

J. G. de Araújo Jorge

Nasceu na Vila de Tarauacá, no Estado do Acre, aos 20 de maio de 1914. Ainda jovem iniciou-se na poesia. Estudou em Coimbra, Portugal, e fez curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim, Alemanha. Além de escritor, locutor e redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura, líder estudantil, tinha política em suas veias. Foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se deputado federal pelo Estado da Guanabara, em 1970. Foi reeleito em 1974 e 1978. Mesmo combatidos pelos críticos, seus livros — em número de 36 — tinham grande aceitação e foram publicados em diversos países. Faleceu no dia 27 de janeiro de 1987.

Fonte: wikipédia


Retrato de Mãe


Uma simples mulher existe que, pela imensidão do seu amor, tem um pouco de Deus; pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo, que sendo moça, pensa como uma anciã; sendo velha, age com todas as forças da juventude; quando ignorante, melhor que qualquer sábia, assume a simplicidade das crianças; pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama; rica, empobrece-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos; forte, estremece ao choro de uma criancinha; fraca, entretanto, se alteia com bravura dos leões.

Viva, não sabemos lhe dar valor; porque à sua sombra todas as dores se apagam.

Morta tudo o que somos, tudo o que temos daríamos para vê-la de novo, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra dos seus lábios.

Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher, se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum, porque eu a vi passar em meu caminho.

Quando crescerem vossos filhos, leiam para eles estas páginas; eles vos cobrirão de beijos a fronte, e vos dirão que um pobre viajante, em troca de suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria mãe...

sábado, 12 de março de 2011

Poema Mãos Dadas


Não serei o poeta

De um mundo caduco

Também não cantarei

O mundo futuro

Estou preso à vida

E olho meus companheiros

Estão taciturnos, mas nutrem

Grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme

Realidade.

O presente é tão grande, não nos

Afastemos. Não nos afastemos muito,

Vamos de “Mãos dadas”

Não serei o cantor de uma mulher

De uma história,

Não direi os suspiros ao anoitecer,

A paisagem vista da janela,

Não distribuirei entorpecentes ou cartas

De suicidas

Não fugirei para as ilhas

Nem serei raptado por serafins

O tempo é minha matéria,

O tempo presente, os homens presentes.

(Carlos Drummond de Andrade)

A Rua das Rimas

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino.

É uma rua de poeta, reta, quieta, discreta, direita, estreita, bem feita, perfeita;

Com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;

E acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas, douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;

E um passo, de espaço a espaço, no normaço de aço, baço e lasso;

E algum piano provinciano, quotidiano, desumano, mas brando e brando, soltando, de vez em quando, na luz rala de uma sala uma escala clara que embala;

E no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;

E de noite, no ócio capadócio, junto aos lampiões, os bordões dos violões;

E a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que me mata...);

E depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino...

É uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer;

É uma rua como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas, correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, pra frente, para o infinito;

Mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade...

Rua da Felicidade...

(Guilherme de Almeida)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Líricas

Às vezes insistimos amargamente

E em vão,

Mantendo uma mórbida esperança,

Uma embalsamada ilusão...

Assim, como eu,

Que teimo em não perceber

Que tudo já aconteceu...

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Não. Não te entenderei. E na verdade

Já nada mais importa

A vida para mim é um intérmino

Solo...

Como poderei te entender, se me trazes

Agora morto, nos braços,

O mesmo amor que há pouco, em beijos,

Embalavas, e aconchegavas ao colo?

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Escrevo, amor, porque ainda acredito que

Voltes,

Que tudo continue.

Do contrário, apenas enlouqueceria.

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Antes assim...

Foi um fim

Como devia ter sido.

Nem a piedade sobreviveu,

Para amparar o amor, de repente

Destruído.

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

E quem diria, amor, que ao amanhecer

Não nos reconheceríamos,

Nós que até como cegos

Antes nos encontrávamos...

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Se chegasses agora, poderias ainda reconhecer

As antigas pegadas que ficaram

Tatuando loucuras e sonhos...

Se demorares mais, nem sei se nos meus olhos

Haverá luz

Para distinguires o caminho...

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Não te desejo a felicidade

Resta-me a inútil convicção

De que já a colhemos.

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)

Desmemoriados, enterramos este amor

Em que lugar?

E ainda bem. Era amor que nasceu só

Para se viver,

Não, para se lembrar.

(Livro: Espera de J. G. de Araújo Jorge)