sexta-feira, 8 de abril de 2011

Parabola das Rosas e da Violeta


Havia num bosque isolado uma bonita violeta que viva satisfeita com suas companheiras.

Certa manhã levantou a cabeça e viu uma rosa que balançava acima dela orgulhosa e radiante.

Gemeu a violeta, dizendo: Pouca sorte tenho, eu entre as flores! Humilde é o meu destino! Vivo apegada a terra e não posso levantar a face para o sol, como fazem as rosas.

A natureza ouviu e disse a violeta: “Que te aconteceu filhinha? As vãs ambições se apoderaram de ti?”.

-Suplico-te, ó mãe, poderosa, disse a violeta. Transforma-me em rosa, por um dia só que seja.

-Tu não sabes o que estás pedindo, retrucou a natureza. Ignoras o que se esconde de infortúnios, atrás das aparentes grandezas.

-Transforma-me numa rosa esbelta e alta, insistiu a violeta. E tudo o que me acontecer será conseqüência dos meus próprios desejos e aspirações.

A natureza estendeu suas mãos mágicas e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa.

Na tarde daquele dia; o céu escureceu-se e os ventos e a chuva devastaram o bosque. As árvores e as rosas foram abatidas. Somente as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas olhando em volta de si gritou para suas companheiras: “Hei, vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se levantam com orgulho e impertinência”. Disse uma outra: “Nós nos apegamos a terra, mas escapamos a fúria dos furacões”. Disse uma terceira: “Somos pequenas e humildes, mas as tempestades nada podem contra nós”. Então a rainha das violetas viu a rosa que tinha sido violeta, estendida no chão como morta e disse: -Vejam e meditem, minhas filhas, sobre a sorte da violeta que as ambições iludiram. Que seu infortúnio lhes sirva de exemplo.

Ouvindo essas palavras a rosa agonizante estremeceu e, apelando para todas as suas forças e disse com voz entrecortada: -Ouvi, vós, ignorantes, satisfeitas, covardes.Ontem eu era como vós, humilde e segura. Mas a satisfação, que me protegia também me limitava. Podia continuar a viver como vós, pegada a terra, até que o inverno me envolvesse em sua neve e me levasse para o silêncio eterno, sem que soubesse dos segredos e glorias da vida, mais do que inúmeras gerações de violetas, desde que houve violetas.

Mas escutei no silêncio da noite e ouvi o mundo superior dizer a este mundo: “O alvo da vida é atingir o que há além da vida”. Pedi então a natureza – que nada mais é do que a exteriorização de nossos sonhos invisíveis – Transforma-me em rosa. E a natureza acendeu ao meu desejo.

Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo pelos olhos das rosas. Acariciei a luz com as pétalas das rosas. Ouvi a melodia do éter com o ouvido das rosas.

Pode alguma de vós, vangloriar-se de tal honra?

Morro agora, levando na alma o que nenhuma alma de violeta jamais experimentara.

Morro sabendo o que há atrás dos horizontes estreitos onde nascera.

É esse o alvo da vida!

(Gibran Khalil Gibran)


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